31.8.07

instinto selvagem

eu sempre sofro desses sonhos muito reais, sabe. daqueles que fazem a gente acordar berrando, chorando, suando e outros verbos de ação não muito agradáveis terminados em "ando". eu sonho sempre, e muito, às vezes 2 ou 3 sonhos por noite. isso sem contar os que eu não lembro.

há duas noites, sonhei que estava numa festa bem-iluminada demais, dadas as atividades excusas que praticavam os festejantes. estávamos todos em trajes sumários e suados, corados, com os cabelos úmidos grudando no corpo. quando digo trajes sumários, não quero dizer "quase-pelados"; quero tentar concretizar a seguinte imagem: homens e mulheres portando roupinhas pequeninas e justas, esburacadas, feito roupa de briga de criança. aqueles shortinhos de malha de cor verde-água e suas respectivas camisetinhas originalmente brancas com silk desbotado, gola esgarçada, com dizeres tipo "i like ice cream". a infernália visual só me permitiu uma conclusão: era uma festa de carnaval.

eu tinha uma amiga alta, morena e magra, a qual não conheço na vida real nem sei o nome fictício, porque em momento algum chamei a dita-cuja pelo nome no sonho. portanto, a chamarei apenas de amiga A. pois bem, estávamos amiga A e eu na porta do banheiro feminino, com sua devida fila interminável dobrando a esquina da construção. a amiga A estava voltada para fora do banheiro, e eu, voltada para dentro. estávamos lado a lado, encostadas, esperando amiga B, desconhecida também, aparecer de sei-lá-onde.

nisso, entra em cena amiga C, que não era amiga coisa nenhuma. invade o banheiro esbarrando em mim essa menina mais baixa que eu, loira e de olhos claros. suas bochechas estão tão coradas que ela parece acabar de sair de 1h30 de spinning, nível avançado. ela veste um shortinho de cor coral e carrega numa das mãos uma garrafa quase-vazia de smirnoff:

"qué quessa porra desssssa mennnina tá facccendo aqui na minha frente? eu não quero ver esssssa porra desssssa mennnina maisssss, esssssa vaca vadia piranha descabelada..."
(referindo-se à amiga A, que estava de costas e ignorava a falácia completamente)

aparentemente, amiga A tinha feito algo de muito sério à inimiga C.

"eu vô é rachá o côco dessssa vaca, essssa vagabunda hahahahahaha, VA-GA-BUNNN-DA, que bonnnito fica quando a chente fffala vagabunda assim... que enche a boca..."
(levantando a garrafa e prestes a rachar, de fato, o côco de amiga A)

explode em mim então um arrombo de solidariedade e heroísmo. assistindo a lenta trajetória da garrafa de smirnoff em direção à cabeça de A, me desloco num sobressalto e invoco meus adormecidos movimentos de karate, agarrando o braço de C e arrancando a smirnoff da mão dela. jogo a garrafa num canto, que explode e enche o banheiro de cacos, provocando gritos das menininhas de chinelos.

escorrendo das minhas mãos, C ri da minha cara, mole, num escárnio do mais irritante. sua carinha redonda e corada e seus cabelinhos loiros despertam a besta. apertando a juliana pelos sovacos (subitamente, no sonho, oráculo decide chamá-la de juliana, trazendo à tona uma lembrança antiga de colega-mais-odiada-de-1992 e deixando claro que nada é por acaso), levanto a menina do chão e a jogo sentada em cima duma cuba de pia, na qual ela cai encaixada, mole ainda, rindo mais que nunca.

de mão fechada, sou obrigada a socá-la na cara. no olho (direito dela, esquerdo para mim), encaixo entre 10 e 15 socos, sempre no mesmo lugar, querendo estourar o supercílio e ver sangue escorrendo na roupa e no chão. eu quero que aquele olho inche, fique roxo; quero que doa muito e que a maldita juliana PARE DE RIR. mas ela não pára. ela continua rindo, rindo como se a dor fosse engraçada, rindo como se eu não tivesse arrebentando a fuça dela.

de repente, sinto como se tivesse socando gelatina. ou melhor, geléia de mocotó. a idiota da juliana ri. minha raiva aumenta em progressão geométrica. aperto os dedos fechados ainda mais, concentrando todo o chi no meu punho nervoso. dali, sai um soco maior que todos os socos do mundo, que vai acertar em cheio o osso do olho direito da juliana, fazendo ela bater com a cabeça nos azulejos sujos do banheiro e hematomizando toda aquela área da cara dela instantaneamente. ela pára de rir e desmaia.

minha mão dói um monte; eu saio dali. as outras meninas presentes no banheiro e arredores fingem que não viram nada. amiga A some de cena, amiga B nunca chega e eu preciso dumas cervejas. esbarrando em todo mundo e querendo acordar, saio dali prum lugar que não sei onde fica.

o despertador toca.

fim.

eu gostei bastante desse sonho... :)

21.8.07

sinal do destino

depois de dias seguidos de estudos para uma prova (quem diabos dá prova após ter ministrado duas, eu disse DUAS!, ínfimas aulas? um professor da FEA, claro!) cujo conteúdo consistia em nada menos que um case de Harvard de 34 páginas em inglês, 2 artigos em inglês com um mínimo de 10 páginas cada, uma porção de quase 60 páginas dum livro em inglês e um outro livro inteiro, desta vez em português, cuja coloração felizmente ignoro, minha cabeça explodia.

havia dormido apenas 3 horas. e não, eu não trabalho (formalmente, ao menos).

enfim, minha cabeça explodia e eu ali, sentadinha no banco metálico-conforto do ponto de ônibus da rua dos bancos, esperando já não sem fúria o aclimação. eis que me vem uma luz - além, é claro, daquela toda já por demais cegativa dum nublado resplandecente - : "se passar o praça da sé primeiro, vou ao shopping".

pisco duas vezes e CAZZO! praça da sé!

tomei a liberdade de considerar o sinal como sendo uma piscadela divina de aprovação para que eu fosse gastar os não-meus reais no eldorado. o resultado é um vestidinho da renner para usar com calça, estampado de outlines de folhas, fofíssimo, cujo price-value (viu só como estudei direitinho?) demonstrou ser uma bagatela incrível.

um viva às promoções de final de estação!

14.8.07

de repente os olhos são palavras

voltando da sp trans da augusta hoje - que, por sinal, mudou de endereço sem avisar nem nada e, para ajudar, nem uma maldita placa escrita a bic pôs em frente ao novo local -, vi um homem cor de leite com café, pele castigada pelo sol. olhos azuis, cabelos grisalhos penteados para trás. o homem era magro, mas tão magro, que a cabeça dele era a parte mais larga do corpo, mais larga que os ombros até. pensei num boneco de palitinhos, mas depois fiquei triste...

na seqüência, vi um cachorro magro, mas tão magro que estava no mesmo estado que o homem. este sim era simpático: pulguento sem igual, cheirou de leve a minha mão e me acompanhou por 2 quarteirões seguidos, me escoltando até a porta de casa. quase o chamei para entrar. eu e essa minha vontade de ter uma dama-de-companhia aqui em são paulo...

em tempo: vejamos se o post curto gera mais comentários desses leitores (leitores?) preguiçosos que eu tenho. shame on you. da vovó, até cartinha recebi! :)

8.8.07

canção para você viver mais

hoje eu assisti ao filme "mais estranho que a ficção", recomendado pela brisa após um pedido desesperado de dicas cinematográficas. sabe como é, chega um ponto na vida da gente em que bate essa impressão de que já vimos todos os filmes que a locadora é capaz de nos proporcionar, e com ela vem a sensação de "estou ficando velha, cara". é aterrador. e é nessas horas que apelar para pessoas que provavelmente já viram mais filmes que a gente (mais filmes relevantes, pelo menos) é essencial.

mas não é sobre isso que eu queria falar. voltando ao filme, só consegui terminar de assisti-lo na 2a. tentativa, a qual se tornou bastante truncada devido aos cochilos que eu repeti durante a sessão. não que o filme seja ruim; pelo contrário. eu é que estava com sono mesmo, porque não havia tomado o meu cafézinho pós-almoço com bolo de fubá, combo que eu apelidei carinhosamente de "dádiva vespertina". e porque fui dormir tarde e acordei cedo.

a 1a. tentativa frustrada de assistir ao filme se deu ontem à noite. o lulo estava comigo. ambos dormimos. conversando sobre o filme no msn depois, ele me perguntou o que acontecia no final. ele pretendia encaixar o filme em algum momento entre os seus afazeres esportivos, sociais e acadêmicos e terminar de assisti-lo, mas ele queria saber se o esforço valia a pena. enquanto eu contava do filme, ele perguntou se era com a "secretária" que o protagonista ficava. eu disse que não, que a secretária (pois há uma secretária no filme) era a negona, a queen latifah; que ele ficava com a padeira, a maggie gyllenhaal. "ele", no caso, é o will ferrel, ator que eu até então não conseguia imaginar fora de uma comédia tosca daquelas que, de tão tontas, são quase engraçadas. mas enfim.

diante da resposta, ele retrucou "pois é, a 'secretária', a maggie gyllenhaal é a 'secretária'". só então me dei conta de que ele se referia ao filme "a secretária", que é muito legal, por sinal. bom, eu gostei. contei que assisti esse filme com a minha avó. deixa eu explicar: a vó é a avó mais descolada desse mundo, dada a idade da cidadã. ela é legal e antenada e assiste a filmes lindíssimos e os acha lindíssimos mesmo, assiste a filmes policiais e os acha eletrizantes. a vó está acompanhando a série "prison break" comigo, e fica tão excitada e tensa quanto eu a cada novo episódio. a vó entende de literatura e já leu os livros mais legais do mundo, com exceção dessas coisas novas que a gente lê, e aposto que, se lesse elas também, igualmente as acharia as coisas mais legais do mundo. trocando em miúdos: a vó é O CARA.

ele riu via msn. "o que a vó achou das partes sexuais do filme?", ele perguntou. ela não achou nada. ela achou legal. ela gostou do filme tanto quanto eu. a vó é esse tipo de pessoa, esse tipo que não fica chocada com novidades, que as aceita bem e que, se estão de acordo com os gostos dela, ela abraça com prazer e sorri. exceto quando as novidades tem a ver com as pessoas que ela gosta. aí ela não aceita, não. ela sofre, ela chora, ela fica sem palavras no telefone quando você liga para ela de outra cidade, estado ou país. ela é um poço de emotividade.

certa vez, ela teve um computador. tentei ensinar a vó a usar a internet de qualquer maneira. mas, por uma série de fatores, entre eles a seqüência grande de operações a se realizar para chegar a qualquer lugar na internet, a qual ela não conseguia memorizar (e, portanto, anotava num caderninho. fofa!) e o pouco interesse dela pelo mundo virtual, a vó acabou não usando o computador dela para outras tarefas além de jogar paciência. mas já era um grande avanço, ela reconheceu. afinal, as cartas se embaralhavam sozinhas e ela nem perdia tempo colocando o feltro verde sobre a mesa e distribuindo as cartas pouco a pouco. uma praticidade só.

falando sobre a vó, me dei conta da pessoa foda que ela é, uma das mais fodas que eu conheço. ela é inteligente e não acha que é inteligente, o que a faz ser interessada em novas coisas e em aprender. ela cuidou da gente durante toda nossa infância e adolescência, nos abastecendo com bastante atenção e bolo preto, que hei de imortalizar um dia no café que vou abrir. ela é na dela, odeia brigas e discussões, odeia criar caso, odeia pesar. uma vez, eu comprei para ela uma bonequinha de feltro que tinha cabelinhos brancos (a vó tem cabelinhos de algodão) e asinhas e auréola, uma bonequinha que era um anjo. porque é isso que ela é: um anjo caído. só pode ser. porque uma pessoa que não tem maldade e só vive para fazer os outros felizes só pode ser um anjo, na minha concepção... aí eu escrevi uma carta para ela junto com a bonequinha; acho que era o aniversário dela. e então ela chorou mais do que todas as vezes que eu já vi ela chorando.

a vó usa palavras como "lusco-fusco". a vó diferencia verbalmente o passado e o presente do verbo "andar", entre outros verbos, usando "andámos" como forma passada e "andamos" como forma presente. a vó sempre compra broinhas de milho do di schiavi para mim quando digo que vou tomar um chá com ela ou que vou dormir lá. a vó dá o dinheiro para alugar os dvds do prison break. a vó separa livros legais quando a gente fala que queria ler alguma coisa nova. também compra a coleção inteira de livros de arte da folha, só porque sabe que a gente gosta de arte e porque acha que a gente ia gostar de tê-los. a vó gosta de comprar sorvete pra gente, revistas pra gente, danette pra gente, só porque ela sabe que a gente adora. e ela também faz a "noite do hambúrguer", badaladas quintas-feiras nas quais ela compra ingredientes para montar deliciosos hambúrgueres que são sucesso certeiro, convidando todos os netos dela (e apêndices) para participar.

pensando nisso tudo, fiquei imaginando como era o vô. porque eu não conheci o vô; ele morreu quando eu tinha poucos meses de idade. na verdade, nenhum de nós conheceu o vô, já que eu sou a mais velha. mas o vô deve ter sido um homem incrível. primeiro porque ela escolheu ficar com ele. e depois, porque ela sente falta dele até hoje... uma vez, ela me contou que, perto do lusco-fusco, vai batendo uma tristeza nela porque essa era a hora em que ele chegava em casa do trabalho. com a convivência, percebi que ela sempre assobia uma música nessa hora, no lusco-fusco (adoro essa palavra), todos os dias. pensando bem, ela sempre assobia: ela assobiava para mim músicas como "você é linda" e "linda, meu bem". ela assobia quando ela cozinha, ela assobia quando ela monta a mesa para o chá, ela assobia quando está distraída organizando a casa e pensando no vô.

ela coleciona corujas. ela fala que a casa dela é um altar, tantos são os santos e afins espalhados por ali. ela tem uma coleção de música clássica mas também gosta de ganhar cds de lounge music de presente do meu irmão, e ouve eles todos. ela caiu e quebrou a patela, e desde então precisa de atenção constante enquanto anda, porque a perna dela ficou fraquinha. e ela me deu a cama de casal dela de presente, e a televisão antiga dela de presente, e o sofá-cama dela de presente, e eu desconfio que ela tenha trocado todos estes móveis por outros novos porque sabia que a minha casa aqui em são paulo é mais pelada que a mulher-samambaia. tudo para ter uma desculpa para me dar todas essas coisas.

é ruim pensar assim, em morte e essas coisas, mas a verdade é que eu vou sentir muitas saudades da vó. não creio que vá ser tão logo, porque desconfio que ela se cague de medo de morrer. mas vou sentir falta dela, daquelas que doem, das que não são faltas boas. vou sentir falta dela como só senti de uma pessoa que foi embora até hoje. mas acho que é assim mesmo, né. faz parte do crescer, dizem.

sabe o que eu acho? CRESCER SUCKS.

6.8.07

agruras do cotidiano

estar sem trabalhar, muitas vezes, se traduz numa rotina caseira deveras atribulada. supreendentemente, preparar e tomar o café da manhã nunca foi tão complicado. a tarefa de limpar, lavar e cortar os morangos, jogar a granola por cima e adicionar o iogurte líquido leva muito mais tempo do que eu imaginava... ou sou eu que ando fazendo as coisas mais devagar, para me sentir minimamente útil (pergunta retórica)?

aproveitando a levada lerê-lerê, lavei uma infinidade de louça suja que descansava em paz na pia. também coloquei 12kg de roupa para lavar numa lavadora de 8kg, o que causou um certo furor durante a lavagem. cacei então as folhas de babosa que a joana, que trabalha na casa do avô da aninha lá em santa rita do sapucaí, em minas, me deu de presente porque comentei que meu cabelo ia de mal a pior: fininho demais e caindo aos tufos. nunca tinha passado babosa de verdade no cabelo e confesso que o cheiro não é dos melhores. nem o trabalho que dá pra extrair a baba toda de dentro da folha. mas a textura do meu cabelo melhorou, eu achei. infelizmente, a tal babosa não impediu que uns 582 fios pulassem pra longe do meu couro cabeludo durante o banho. será que eu vou ficar bem de turbante?

para o almoço, cozinhei arroz, carne moída temperadinha e cortei uns tomates. depois, café e bolachas de aveia e mel, paixão incondicional. arruma daqui, arruma dali, fui ao supermercado comprar comida e outras mercadorias de primeira necessidade. cara, acho incrível como uma compra modesta, que cabe em sacolas as quais consigo carregar sozinha (ainda que com bastante dificuldade), consegue custar quase cem reais. CEM. REAIS. brasileiro sofre.

sabe o que eu odeio? carregar as compras de volta pra casa sozinha. partindo do fato de que eu levei mais ou menos 7 minutos só pra enroscar as frágeis e nada confiáveis sacolas nos dedos, já dá para ter uma idéia. e o peso? tive que deixar um litro de leite porque não ia conseguir carregar. e os tiozinhos toscos na rua perguntando "tá pesado, linda"? NÃÃÃO, QUÉ ISSO, TÔ CARREGANDO POR HOBBY, É QUE EU ADORO CARREGAR SACOLAS POR 5 QUARTEIRÕES SEMPRE QUE NÃO TENHO MUITO O QUE FAZER! grrrrrr.

guardando as coisas, descubro uma batata podre entre tantas outras da legumeira. o cheiro é estarrecedor. muito pior que o cheiro fermentado dos legumes esquecidos num tupperware na geladeira. tudo pro lixo.

no final, o que faz a vida valer a pena é aquela barra de chocolate pra dividir com as nenas aqui de casa, depois do jantar, assistindo novela. que puxa.