só voltei porque senti falta daqui, de dizer um olá. ando cada dia mais relapsa, mais desapegada, mais distante, eu sei. embora eu esqueça muitas coisas, queria dizer que ainda não esqueci aquilo que realmente importa. aquelas poucas pessoas, os gestos precisos, as expressões apertáveis, as olhadas de lado e os meio-sorrisos. desses detalhes eu lembro cada manhã, naqueles cinco minutinhos ainda mornos antes de levantar pro dia, embolada no meu edredon ikea 80% penas 20% plumas, todas de ganso, que faz um barulho engraçado de lona de piscina cada vez que eu me mexo debaixo dele e que curiosamente não me dá alergia.
mallorca é linda. imagino que seja absurda no verão, mas eu sinceramente não gostaria visitá-la nessa época: gringos demais, alemães demais, gente demais, argh, coceirinha só de pensar (estou cada vez pior com esse negócio de aversão a multidões). eu não sei o que acontece com esses alemães, mas eles têm esse inconsciente coletivo espírito de porco que é instantaneamente ativado, tão pronto ingerem duas ou três gotas de álcool. os alemães podem sim ser uns amores, mas igualmente conseguem ser os maiores escrotos.
o frio que fez em mallorca foi memorável. venta demais lá. lembrei da bruna. vento gelado na cara, os cabelos de todo mundo bagunçados e embaraçados, os olhos apertados que era pra poder enxergar as coisas. por outro lado, quando fez sol, vi as cores mais lindas. não eram aquelas cores quentes, aqueles azuis e ocres ferventes que se vê quando se vai para morro branco, no ceará, por exemplo. eram cores de contraste parecido, mas frias. mais vivas. como se elas fossem fresquinhas e o sol de repente as esquentasse só um pouquinho, só nas bordinhas. e então, um amarelo ocasional parecia muito mais confortável que um amarelo brasileiro.
imagine um balneário dos mais comuns. assim é o lado chinelo de palma (a capital). quando cheguei, pensei imediatamente naqueles episódios do chaves em acapulco (!). mas, com um pouco de paciência, um carro e uma local, palma pode ser muito mais interessante. tem uma catedral gótica incrível, com direito a gárgulas todos diferentes uns dos outros e aquelas alturas de mais de 30m. tem todas as ruinhas estreitas com portonas de madeira diferentosas que também se vê aqui por barcelona . tem castelo na montanha, de onde dá pra ver a ilha inteira. tem mirador, de onde se enxerga além-mar. e tem mar... ah (suspirinho)!
éramos oito, e a casa em que ficamos é dos pais de uma amiga. por fora, ela tem mais de 100 anos e é feita com aquelas pedras amareladas que a gente sempre imagina em todas as casinhas antigas da espanha. tem pátio frontal, poço, olivos em volta, tudo. é um sobrado. por dentro, um absurdo: inteirinha reformada, toda minimalista, dizáini mesmo. linhas simples nos móveis de madeira, branco nos estofados. a cozinha em aço escovado. branco nas paredes, brancos nas pinturas das paredes e uns tons ocres ocasionais. flipei. na suíte master do casal imperial (a casa tinha 6 quartos), uma cama baixa com muitos travesseiros e um edredon vem-meu-bem, um quadro branco-sujo, redondo, logo atrás, duas poltronas em madeira e branco e uma planta entre elas. e, de fora a fora, inclusive estendendo para a área do banheiro - que não tinha portas e ficava logo ali -, janelas. JANELAS, CARA. que davam para a piscina, para todos os olivos, para a lonjura mais longínqua que se possa imaginar, para a montanha e o mar e para o alto e avante. aquele quarto recebia toda a luz, o dia todo, a luz baixa e amarela do inverno, e ali foi onde eu me senti mais confortável na vida. sabe aquele quarto que você sempre sonha em ter um dia, quando crescer, ficar rico e for, tipos, recém-casado? poizé, eu encontrei o meu.
además, imersão forte na cultura catalã. 7 catalães na casa, uma obviamente mallorquí, e eu. era embutido pra todo lado! umas coisas de comer que eu nunca tinha visto, llonganiza, butifarra, uns bagulhos pretos horrorosos de ver mas deliciosos de comer. mais um ponto em comum entre catalães e brasileiros: nossa comida é feiosa, mas é muito da gostosa. mas teve também os docinhos lindos, as ensaimadas todas, típicas mallorquinas e dos mais variados tamanhos.
saldo final: uns prováveis quilos mais gorda, um jorge luis borges a mais, uma quase-fluência em català de ouvido, um estoque infindável de fotos mentais, um estoque finito de fotos digitais, poker nível básico, 7 amigos novos e um dente a mais no sorriso.
e ah!, sabe o que mais? nada paga descobrir que os catalães jogam truco também. ¡truuuco, gillipollas de mèrda!