sim sim sim, eu sei e concordo que faz tempo que não escrevo e pimbas, e isso acaba me enchendo de idéias e me esvaziando de paciência para pô-las todas no papel, ou melhor, na tela. a questão é que ando sem saco; não sei se porque me acostumei àqui ou se porque são tantas coisas que não consigo começar. note que, neste caso, "começar do começo" não se aplica, porque meus dias andam sendo de uma discontinuidade tamanha que o ditado se faz impossível.
o pior é que sei que, por mais que eu tente, nada do que eu escrever aqui vai conseguir descrever minimamente o fato ou as impressões deste que me marcaram, ou seja, vai dar quase que no mesmo. ou seja, dane-se. é uma pena que eu não posso me teletransportar para o brasil por um bom par de horas para trocar um bom par de palavras com uns e outros, a quem eu gostaria de estar contando tudo isso ao vivo - e a quem certamente não vou me dar o trabalho de contar quando eu voltar, pois o timing da piada já se terá perdido há tempos. ei, vocês sabem quem são. é só ligar o fato à pessoa, gente.
enfim, lá vamos nós. fazendo um balanço destes três meses e meio passados (já?!), o par de palavras que postas juntas descrevem perfeitamente os meus dias aqui são: EXPERIÊNCIA e ANTROPOLÓGICA. topiquizemos:
- o catalão se parece mais ao português do que eu imaginava. depois de 3 meses, já entendo quase tudo, ainda não falo quase nada e estou bem assim. é tudo questão de acostumar o ouvido e pegar o sotaque. ¡vizca catalunya!
- os catalães são bem parecidos com os brasileiros: eles são folgados, te chamam de gostosa na rua, estão sempre atrasados para os compromissos, adoram o carnaval deles, não dispensam uma boa refeição, adoram uma preguicinha depois do almoço, têm costumes estranhos, bebem muito, saem super tarde à noite, voltam super cedo de manhã e quebram tudo na balada. são engraçados e falam bastante, apesar de não serem muito simpáticos. e ai de você se falar mal do barça...
- com não-latinos, a história é sempre a mesma: o videogame não tem a opção "save game". todo dia é um novo esforço, uma nova peleja, um começar-do-zero-tudo-outra-vez, seja no assunto do papo, no tratamento físico-emocional ou no simples ato de querer "roubar" um par de fatias de pão para devolver depois - ato obviamente impraticável e devidamente ofensivo. ou seja, salvo exceções raríssimas, não-latinos sofrem de uma amnésia social constante, enfermidade esta que os faz frios e sem muitos amigos de verdade.
- parques são pontos de encontro de velhinhos, desempregados em geral e crianças recém-saídas da tortura diária popularmente conhecida como "escola". nos parques, estes seres se encontram num estado de ânimo muito peculiar que gosto de chamar de "em polvorosa". ou seja, ir ao parque devidamente equipados com seus cães (ou suas mochilas, no caso das quiança) é o ponto alto do dia de todos eles. ou seja de novo, não tem gente mais amigável e despreocupada que os seres do parque, fato ótimo quando se está passando por ali e pensando em contar com a caridade alheia, seja em itens alimentícios ou em espécie mesmo.
- não, os não-latinos REALMENTE não podem dançar, não importa o que eles façam ou o quanto eles tentem. ainda, e repito, AINDA que eles sejam os lords of the ballroom dance nos seus países de origem.
- os finlandeses têm uma estranha porém eficaz técnica de esquentar as mãos. eu diria que ela é absolutamente imprescindível para quem vive naquelas terras. o episódio "descongelando as mãos em suomenlinna na água quente do banheiro público seguido de ventinho elétrico do secador de mãos e sentindo seu sangue voltar a correr nas veias dedais e tê-los todos formigando por horas" que o diga por mim.
- quando um italiano abre a boca para falar espanhol, você automaticamente SABE que ele é um italiano. imagine aqui a entonação e a gesticulação.
- todo francês fede. e, se não fede, cheira esquisito. e, se não cheira nada, pelo menos a comida que ele cozinha é fedorenta.
- os búlgaros não sabem estacionar seus carros.
- espanhóis gostam de alemãzinhas (e derivadas) e alemães gostam de espanholonas (e derivadas), e isso, minha gente, é uma regra.
- todo mundo aqui tem técnicas excelentes para fazer o que quer que seja, mas o conceitual... pelo amor dos meus filhinhos!
- aqui, os mais inteligentes, sabidos, recheados de bagagem cultural geral e de nossa tão idolatrada salve-salve cultura inútil são os você menos esperava: búlgaros, eslovenos, eslovacos, estonianos, finlandeses... enfim, toda a europa lado-b. isso sem contar a comunidade latino-americana, claro.
- os espanhóis não falam inglês, e isso é mais sério que uma regra. os catalães... bem, deles eu nem vou comentar.
óquei, chega. é isso por hoje. sem enlace final porque isso está pela nem-metade, mas com uma certeza conclusiva: gente interessante é aquela que mantém a capacidade de deslumbramento. gente esta que, em geral, devido aos fatos e contextos, costuma ser latina ou européia lado-b.
adeu, que tinc molta gana.