10.3.06

do seu lado

o velho e o mar sobre a cabeceira dela e ela nunca dava bola. edição antiga, já sem capa, mais morta que viva, páginas amarelas. só morta porque assim ela a mantinha por não lê-la. era como paisagem de perto de casa. de tanto passar por ali, já não mais se nota, afinal, ela está ali... sempre ali. a paisagem. e o velho. e o mar. e aqueles amigos com os quais estamos acostumados demais para dar qualquer importância além daquela manutenção semanal padrão.

houve então a vez em que ela, sem nada para fazer, decidiu olhar com mais atenção para o velho amarelado. talvez fosse bom. talvez ele soubesse de algo que ela ignorava. talvez ele trouxesse algo de novo para si. talvez, talvez, talvez. abriu, leu as primeiras linhas. havia ali um tipo de interesse. mas logo os olhos pesaram do sono acumulado e ela deitou o velho ao seu lado, e assim se passaram semanas e semanas, sempre algumas poucas linhas e o velho se deitando antes do prometido fim.

enfim havia lido o velho inteiro. era como se o próprio mar tivesse aberto diante de si. o céu havia caído e sua cabeça era agora um caos. os pensamentos galopando demais, trombando nas paredes da mente confusa dela. meu deus, o que era aquilo? ele estivera ali o tempo todo, silencioso, complacente. havia visto ela nua umas tantas vezes. outras tantas, vestida em pijamas velhos que raramente passavam de regatas e calcinhas. havia ouvido ela chorar baixinho quando a luz se apagava; respirar forte se houvesse outro corpo ocupando o mesmo espaço; reclamar com as paredes e o todo mais sobre esse outro corpo que já não mais se encaixava no vazio do coração dela. essas coisas. havia ouvido tudo. e sempre estivera ali, quieto, esperando a vez dele, a vez que nunca sabia se chegaria ou não. talvez, talvez, talvez.

quando o céu caiu e o mar se abriu e tudo o mais, ela não mais conseguia tirá-lo da cabeça. era engraçada aquela situação. trágica até. alguém que estivera há tanto tempo ao seu lado, quietinho assim, havia se tornado um falatório sem precedentes preso num corpo mudo. bla bla bla na orelha dela o tempo inteiro, falando coisas sobre o amor e a dedicação e a fidelidade e todos os outros sentimentos nobres que, na falta de alguém que nos valha aplicar-lhes, acabamos distribuindo-lhes pelas coisas mesmo. amor ao bem material, diga-se. pois então, ela não tinha a pessoa, mas tinha a coisa. o velho e o mar. e o mundo inteiro se desdobrando à sua volta, como as flores de filmes de botânica de discovery channel que se desabrocham naquela velocidade violenta. ficou triste por lembrar não ter a pessoa. ou talvez tivesse. será? talvez.

pensava em como o velho não era nomeado, nem o peixe, nem o tubarão. o velho era o velho, o peixe, o peixe e o tubarão, o tubarão. simplesmente. como a rosa do príncipe. mas que droga, por que a bosta da rosa nunca havia sido nomeada? o nome da rosa. bom, o nome da rosa não existia. mas não se deve nomear tudo aquilo que se cativa? quando se compra um cão e se gosta dele, dá-se-lhe um nome. mesóclise! dá-se-lhe um nome, assim como ao filho que nasce. e o livro, digo, o amigo, não se deve nomear? e a rosa, que foi feito da rosa? por que caralhos o principezinho nunca havia nomeado a rosa? bom, certamente a rosa tinha um nome ao autor, e conhecendo-se zé perri, bem se sabe que o nome da rosa era esposa, a rosa para a qual ele voltara após ter conhecido tantas outras. porque somente ela era ela.

bem, ela tinha um amigo com um apelido, mas não conseguia nomeá-lo, mesmo tendo decidido praticar com ele a mesma dedicação que praticara com velho, tendo obtido tão bons resultados. da mesma forma que não conseguira nomear o velho, não o conseguia com o amigo. aliás, qual era seu nome mesmo? e, se quisesse cativá-lo, não deveria nomeá-lo?

talvez não. o príncipe nunca nomeou a rosa e ainda assim fora cativado por ela. e ela? seria algum dia cativada? a rosa? aquela rosa sim sabia ser blasé. ela também. e sabia que podia cativar, a danada. quase quem quisesse. quase todo mundo. tinha assim essa mania de testar-se nos outros, amoldar-se, adaptar-se às necessidades alheias para subir no pedestal do altar de cada um. e, assim, conseguia ser adorada, no sentido de adoração mesmo, talvez amada, como poucas outras conseguiam. esse era o seu zap. mas cansara-se dessa história absurda. nada mais de cativar. queria agora era ser cativada, tal qual o velho fizera com ela sutil, mas maestralmente.

olhou em volta a ver se encontrava alguém na posição certa. nem precisou procurar minuciosa. havia ali aquele amigo. era aquele de sempre, sempre ali, aquele de todas as horas, do trabalho e do cinema e da balada e do parquinho e do sorvete de à tardinha. aquele das conversas de sexo e dos rubores no escuro. aquele que nunca sabia quando ela atingia a embriaguez, e então ela se sentia tão tão tão no poder por enganá-lo. aquele servia, aquele sim. ele tinha potencial. bastava dispensar-lhe um pouco mais de atenção que a rasa de todo-dia. mais conversa, mais cinema, mais parquinho, um pouquinho mais de olhar atento e ah!, agora sim. ela via as peças se encaixando lentas, mas precisas. ele, que sempre estivera ali, ao lado dela, se mostrava mais adequado que qualquer outro. ou outra. que qualquer tudo. por que diabos ela nunca havia reparado nele mesmo?

sentiu-se feliz por não ser tarde demais, e não era. tudo tornou-se aos poucos mais freqüente, as visitas, as caronas, as conversas, os olhares, tudo. no sofá, falavam sobre deus e o mundo e as pessoas e sobre tudo o que não mais havia para se falar, até vagarem-se as palavras e ficarem-se os olhares perdidos e achados que, quando cruzavam, desviavam em riso de canto de boca e rubor nela. sabe empurrãozinho?

chama-se álcool. teve essa noite em que o álcool foi muito e a vontade também. houve um convite (dela) para subirem e outro (dela também) para deitarem-se de cansados que estavam. o velho também estava ali, tão cansado quanto poderia, porém não mais morto, como já se sabe. e a partir daquilo foi um tal de respiros na cara e de vacilos prévios, de posso-não-possos, de devo-não-devos, de um foda-se só: vamos, que é que eu tenho a perder? e você, o que tem?

e tudo o mais foi um borrão esbranquiçado e mole sobre azulejos, o qual nenhum dos dois sabe descrever bem ou quantificar com precisão, mas nem precisa mesmo. e desde então tem sido todo dia, escondido, escancarado, simultâneo a outros casos ou não, com e sem ciúmes e com uma brecha de três semanas que virou namoro no primeiro dia de volta. namoro cuspido, esse, depois de suor e na hora mais engraçada do mundo: o pós. engraçada para ela. ideal para ele. tão típico que não poderia ter sido diferente.

estava ali então o velho dela. o velho de sempre. o velho coisa que virara velho gente no sentido de ter sido descoberto como o velho livro. estivera o velho dela ali o tempo todo e ela cega. desperta, ela soube também que não saberia nomeá-lo, e que as coisas que valem a pena são assim: inomináveis, inenarráveis ou, como diria um amigo sobre seu cheiro, inefáveis. hard to explain. ainda hoje não o nomeia, mas porque se acostumara a chamar-lhe "amigo", sendo esta a condição primordial na sua cabeça para que as coisas dessem certo entre os dois: a amizade. por darem certo antes, deram certo depois. e que feliz que o amigo do talvez se tornara o amigo do talvez sim. e ela... bem, ela se tornara a menina dos olhos dele.

2.3.06

status:

caminhando em porções titânicas de algodão-doce. colorido.

ouvindo strokes e batucando na perna.

chafurdando em reentrâncias mornas e surpreendentemente macias.

divertindo-me a valer.

(la la la pra você também!)