... teve placebo. sorte minha que aninha, the little ann, tiny little ann 'o' curly hair, inventou de ir tomar o capuccino da felicidade na kopenhagen e me deu carona até o trem. fomos, david e eu, até a estação santo amaro e saltamos fora.
pequena caminhada depois, no frio, chegamos. o de sempre. muita gente de preto, muita gente maquiada. david disse "encontre uma menina sem lápis no olho". olhei para mim. tinha achado. provavelmente, a única. aquela história toda, a rouparada toda, todo mundo montado, olhempramimeusoudomal. no fundo, todos inofensivos, muito provavelmente. fiquei meio triste em ver os quatrocentos e trinta e sete mil placebinhos. catorze anos, sexo masculino, maquiagem, cabelo brian molko no auge da androginagem, munheca quebrada. amiguinho, ó aqui, prestenção, você ainda nem sabe que meninos têm pênis e meninas têm vagina. sem bancar o sougayportantoestounamoda pra cima de mim. sei que isso é fase, sei que passa, mas já chega. tá bom. deu.
placebo, em si, foi ótimo. muito melhor do que eu esperava. sim, eles são blasé e sim, eles estão pouco se fodendo para todos os pobres esmagados que pulam na pista, mas eles foram ótimos. e eu que pensava que eles eram mais uma bandinha de estúdio. retiro o que pensei. voz muito boa, segura extremamente bem. arranjos bons, bateria ótima. algumas músicas saíram iguaizinhas aos cds, outras foram versões muito boas. mas nada disso me chamou mais atenção do que a cega.
no meio da platéia, feito sardinha em lata, lá estava ela. ao meu lado. no começo, pensei que fosse uma menina muito chapada: ela olhava para cima o tempo todo, não mantinha os olhos bem abertos, ficava balançando a cabeça. aquela coisa meio ray charles. mas quando ela abaixou o rosto e me "olhou", vi seus olhos e pensei "aaaaah. explicado". só depois fui ver a vara-guia dobrada, que ela carregava para baixo.
fiquei imaginando como ela sentiria o show. deve ser uma explosão de estímulos. quem tem olhos bons já fica confuso com aquele rebu todo, as pessoas te empurrando, suando em você, gritando desesperadamente, caindo, passando mal. imagine a confusão dela. imaginei. mas o rosto não mostrava muita confusão, nem desespero, nem nada. na verdade, ela parecia estar adorando a zona toda. adorava ser levada pelo povo, quase levitando entre as pessoas, os pés mal tocando o chão. ria muito, enquanto uma amiga tentava acompanhá-la. chamava por nomes de pessoas que eu não via, mas que ela provavelmente escutava. mandava beijos para as pessoas, falava que os adorava. eis que ela assobia muito alto, sem os dedos, o assobio mais perfeito e afinado que eu já ouvi.
os sons para ela devem ser muito mais sons. só ela pôde captar as sutilezas das músicas que foram tocadas perfeitamente [ou não] iguais às gravadas no cd. só ela sentiu brian respirar, só ela ouviu o roçar das roupas deles, só ela separou o baixo da guitarra da bateria do sintetizador. ela gritava, extasiada, como qualquer outra pessoa ali, embora o êxtase tivesse motivo diferente. os placebinhos gritavam ao ver "o lindo do brian". ela gritava porque era fiel, porque gostava mesmo era do som - era tudo o que ela tinha. e ela foi tão feliz [ou mais] que qualquer outro ali, mesmo sem "ver" a banda tocar.
obviamente, ela não era uma placebinha. ela era normal. calças jeans normal, camiseta normal, cabelo normal. e a vara-guia [não sei o nome que dão para isso] na mão que, à primeira vista, extrai uma parcela da sua normalidade. mas só à primeira vista.
gostaria de ver mais pessoas normais por aí. tanta gente interessante que talvez eu nunca conheça. c'mon, everyone, come out, come out, wherever you are. come out and play.
pillow talk
22 minutos atrás
