29.4.05

quarta-feira

... teve placebo. sorte minha que aninha, the little ann, tiny little ann 'o' curly hair, inventou de ir tomar o capuccino da felicidade na kopenhagen e me deu carona até o trem. fomos, david e eu, até a estação santo amaro e saltamos fora.

pequena caminhada depois, no frio, chegamos. o de sempre. muita gente de preto, muita gente maquiada. david disse "encontre uma menina sem lápis no olho". olhei para mim. tinha achado. provavelmente, a única. aquela história toda, a rouparada toda, todo mundo montado, olhempramimeusoudomal. no fundo, todos inofensivos, muito provavelmente. fiquei meio triste em ver os quatrocentos e trinta e sete mil placebinhos. catorze anos, sexo masculino, maquiagem, cabelo brian molko no auge da androginagem, munheca quebrada. amiguinho, ó aqui, prestenção, você ainda nem sabe que meninos têm pênis e meninas têm vagina. sem bancar o sougayportantoestounamoda pra cima de mim. sei que isso é fase, sei que passa, mas já chega. tá bom. deu.

placebo, em si, foi ótimo. muito melhor do que eu esperava. sim, eles são blasé e sim, eles estão pouco se fodendo para todos os pobres esmagados que pulam na pista, mas eles foram ótimos. e eu que pensava que eles eram mais uma bandinha de estúdio. retiro o que pensei. voz muito boa, segura extremamente bem. arranjos bons, bateria ótima. algumas músicas saíram iguaizinhas aos cds, outras foram versões muito boas. mas nada disso me chamou mais atenção do que a cega.

no meio da platéia, feito sardinha em lata, lá estava ela. ao meu lado. no começo, pensei que fosse uma menina muito chapada: ela olhava para cima o tempo todo, não mantinha os olhos bem abertos, ficava balançando a cabeça. aquela coisa meio ray charles. mas quando ela abaixou o rosto e me "olhou", vi seus olhos e pensei "aaaaah. explicado". só depois fui ver a vara-guia dobrada, que ela carregava para baixo.

fiquei imaginando como ela sentiria o show. deve ser uma explosão de estímulos. quem tem olhos bons já fica confuso com aquele rebu todo, as pessoas te empurrando, suando em você, gritando desesperadamente, caindo, passando mal. imagine a confusão dela. imaginei. mas o rosto não mostrava muita confusão, nem desespero, nem nada. na verdade, ela parecia estar adorando a zona toda. adorava ser levada pelo povo, quase levitando entre as pessoas, os pés mal tocando o chão. ria muito, enquanto uma amiga tentava acompanhá-la. chamava por nomes de pessoas que eu não via, mas que ela provavelmente escutava. mandava beijos para as pessoas, falava que os adorava. eis que ela assobia muito alto, sem os dedos, o assobio mais perfeito e afinado que eu já ouvi.

os sons para ela devem ser muito mais sons. só ela pôde captar as sutilezas das músicas que foram tocadas perfeitamente [ou não] iguais às gravadas no cd. só ela sentiu brian respirar, só ela ouviu o roçar das roupas deles, só ela separou o baixo da guitarra da bateria do sintetizador. ela gritava, extasiada, como qualquer outra pessoa ali, embora o êxtase tivesse motivo diferente. os placebinhos gritavam ao ver "o lindo do brian". ela gritava porque era fiel, porque gostava mesmo era do som - era tudo o que ela tinha. e ela foi tão feliz [ou mais] que qualquer outro ali, mesmo sem "ver" a banda tocar.

obviamente, ela não era uma placebinha. ela era normal. calças jeans normal, camiseta normal, cabelo normal. e a vara-guia [não sei o nome que dão para isso] na mão que, à primeira vista, extrai uma parcela da sua normalidade. mas só à primeira vista.

gostaria de ver mais pessoas normais por aí. tanta gente interessante que talvez eu nunca conheça. c'mon, everyone, come out, come out, wherever you are. come out and play.

25.4.05

sina

e então você acorda cedo, como fez ontem, e se levanta antes do sol. escova os dentes, olhos semi-cerrados, escolhe uma roupa ao acaso - mas que combine minimamente, afinal, você trabalha -, puxa uns sapatos gastos, engole uma banana e salta fora. o ônibus demora. quando vem, vem lotado. você pede umas licenças educadamente, passa por uma ou outra pessoa mal-humorada [é o mal da humanidade], bate os braços e as pernas nas partes do ônibus quando o maldito motorista freia bruscamente. após 20 minutos, você encontra um lugar vago e se senta.

o amigo ao seu lado fede. as janelas estão fechadas, afinal, faz frio, e quem mantém as janelas abertas se afinal faz frio? ninguém precisa RESPIRAR mesmo! então as janelas estão fechadas e o amigo ao seu lado fede MUITO. mais 15 ou 20 minutos prendendo a respiração, você aperta o botão, parada solicitada, freada brusca e salta fora. anda uns 2 quarteirões com seus sapatos gastos e sua gravata torta e diz bomdia ao segurança. passa pela porta giratória, registra sua entrada com seu crachá velho gasto imundo e espera 2 minutos pelo elevador que sobe rápido demais e te tapa os ouvidos toda vez. muitas atmosferas duma vez só, você vence via elevador.

você se senta na sua cadeira rasgada e desconfortável mas oh well, fazer o quê, você vai ter que aguentá-la mesmo, então melhor não reclamar. você liga seu computador que opera em Windows 98 e nem o MSN 7.0 roda. você não pode ouvir música, você não pode desenhar mensagens para seus amigos, você não pode se mexer demais, você não deve chamar muita atenção. você atende a telefonemas e manda emails a manhã inteira. tudo coisa importantíssima, afinal, seu trabalho é de extrema relevância para o bom andamento da empresa e, consequentemente, do mundo. coisa mais óbvia.

você vai almoçar a DELÍCIA de almoço do bandeijão da sua empresa, toma um suco de laranja ácido e um café fraco logo após. você cumprimenta alguns "amigos", mesmo que no fundo você os imagine ardendo eternamente ao lado do Cão. você vai ao banheiro algumas vezes, você fala com pessoas que nunca viu mas as trata como se fossem seus melhores amigos, você finge amar seu chefe de paixão. você espera ansiosamente pelas seis horas, salta fora, salta dentro, enfrenta trânsito, chega em casa e esquenta alguma coisa que não cheira muito bem, mas já estava lá mesmo e jogar fora é desperdício. você toma um banho - a glória do dia -, veste o pijama puído patético que sua avó te deu no seu último aniversário, assiste o jornal e a novela porque você não tem tevê a cabo e ler não faz parte da sua rotina e, então, cai na cama exausto. dorme instantaneamente. não sonha.

você odeia pensar que seu trabalho é tão imbecil que até um macaco bem-treinado o faria. você odeia imaginar todos os lugares que você nunca viu nem nunca vai ver. você odeia cruzar pessoas interessantes na rua porque você sabe que nunca irá conhecê-las, porque você é um bundão. e sabe disso. e odeia isso. você odeia sua família e seus amigos e seus colegas de trabalho, porque a humanidade em geral é um saco e é tão tão tão odiável. você odeia saber que está preso num ciclo e que vai trabalhar bem mais do que viver, que conhecer, que aprender, que cheirar, que ouvir, que chorar, que rir, que todo o resto. e você odeia como, no final, você vai dizer: "porra, eu deveria ter tentado mais. arriscado mais. me ferrado mais. talvez tivesse valido mais a pena."

meu deus, eu preciso ganhar na sena. desesperadamente. e já.