domingo de páscoa, sabe como é. avó, avô, outra avó, sozinha porque o marido morreu há muito tempo. sabe que até hoje, entre cinco e meia e seis da tarde, ela fica ansiosa porque era a hora do avô chegar? fica irriquieta, e diz que o lusco-fusco sempre a faz lembrar dele. então vai até a cozinha, esquenta água para o chá e prepara uma jantinha. parece fingir comer com ele todas as noites. talvez acredite que ele esteja ali, presente. e talvez ele esteja mesmo. não sei, não o conheci, não sei se foi o tipo do cara que estaria presente sempre. só sei que ela o espera até hoje.
tio e tia, e um priminho completando seis hoje. avô completando 82. também hoje. dois irmãos, um par de pais e eu. churrasco! o que mais tem para se fazer num domingo de páscoa? trocar ovos. comer cuzcuz. sorvete de sobremesa. fez sol, 'bora pra piscina. família, enfim.
como eu já disse, a gente não escolhe. o priminho é a coisa mais fofa e loira e branca e do mal que eu já conheci. diabo encarnado, com certeza. "mãe, vem aqui AGORA, eu tô mandando! mãe mãe mãe mãe mãe! não vou parar de gritar enquanto você não vier! AGORA!" e lá se vai ela. o problema é esse: ela vai. ela vai e ainda pergunta, com voz infantil: "o que você quer, filhinho?" ele: "nada. só queria que você viesse até aqui pra me ver brincar". ok. ok. ok, respira, natalia. se fosse meu, não sobrava junta em pé.
nunca vi uma criança gritar tanto. e corre e pula e grita e grita e grita e grita na sua cara, malcriado do caralho. sentado na minha frente, mostrando a língua, não responde perguntas de ninguém. não responde nunca. as duas avós foram tentar travar uma amigável conversinha e o primo: "o que vocês estão me olhando? querem fazer o favor de sair daqui? vocês estão atrapalhando minha brincadeira". ok. ele ACABA de completar 6 anos. ok. ahan. é isso aí.
inventou de nadar. não tinha sunga. arrancou as calças e foi pulando na piscina. não é que o maldito sabe nadar perfeitamente? pediu bóia, pranchinha, gritou com o pai porque ele havia esquecido o "novo brinquedo aquático". palavras dele. irmão de onze pula na piscina com ele e ficam os dois brincando com o zoológico de borracha que ele tem. tio aparece com uma filmadora.
"filma eu, pai, filma eu!" salta fora da piscina, dá umas reboladas, faz uma dancinha e pula na água de novo. "filmou?" "filmei, filho." "então filma mais." salta fora, rebola, conta uma história, faz gracinha. joga água nos outros. todos riem. minha mãe, rindo entre os dentes, faz uma força danada para conter os bracinhos magros que insistem em voar no pescoço do molequinho. eu nem rio. não acho graça nenhuma. ok, criança é criança, mas ser criança tem limite. não suporto maleducação em criança. gentinha mimada. mamãe, quero isso, mamãe, quero aquilo, mamãe, não vou comer o tomate, mamãe, não quero por a roupa, mamãe, vem aqui agora... vem aqui agora? VEM AQUI AGORA? vou. ahan. vou sim. fica aí, sentado, esperando. quer falar comigo? tem pernas? então que venha até aqui. e AI! do meu futuro filho se inventar de ser assim. coitado. leva sova todo dia.
a derradeira: mamãe indo embora, se aproximando do carro. priminho atrás, sorrateiramente. mamãe não percebe a presença do filhinho e libera um flato, tranqüila na quietude e solidão do local em que estava. filhinho, mais que ouve: cheira. e sai correndo, gritando desesperado, numa espécie de musiquinha: "A MAMÃE PEIDO-OU! A MAMÃE PEIDO-OU! A MAMÃE PEIDO-OU!"
não teve escapatória.
no fundo, não sei se fico feliz ou triste com essas coisas todas. triste porque esse menino vai crescer fresco chato filhinho de mamãe. espero que apanhe bastante na escola. feliz porque foi engraçado, ré ré ré. não que eu goste exatamente dessa tia, se é que você me entende. enfim. mas muito triste por mil outras coisas.
hoje, pela primeira vez em 56 anos de casados, minha avó esqueceu do aniversário do meu avô. chorou. chorou muito. chora todos os dias agora, desde o começo do fim. alzheimer, meus queridos.
chama-se alzheimer.
Battlestar Galactica LED Toaster
5 minutos atrás
