27.3.05

... a gente não escolhe.

domingo de páscoa, sabe como é. avó, avô, outra avó, sozinha porque o marido morreu há muito tempo. sabe que até hoje, entre cinco e meia e seis da tarde, ela fica ansiosa porque era a hora do avô chegar? fica irriquieta, e diz que o lusco-fusco sempre a faz lembrar dele. então vai até a cozinha, esquenta água para o chá e prepara uma jantinha. parece fingir comer com ele todas as noites. talvez acredite que ele esteja ali, presente. e talvez ele esteja mesmo. não sei, não o conheci, não sei se foi o tipo do cara que estaria presente sempre. só sei que ela o espera até hoje.

tio e tia, e um priminho completando seis hoje. avô completando 82. também hoje. dois irmãos, um par de pais e eu. churrasco! o que mais tem para se fazer num domingo de páscoa? trocar ovos. comer cuzcuz. sorvete de sobremesa. fez sol, 'bora pra piscina. família, enfim.

como eu já disse, a gente não escolhe. o priminho é a coisa mais fofa e loira e branca e do mal que eu já conheci. diabo encarnado, com certeza. "mãe, vem aqui AGORA, eu tô mandando! mãe mãe mãe mãe mãe! não vou parar de gritar enquanto você não vier! AGORA!" e lá se vai ela. o problema é esse: ela vai. ela vai e ainda pergunta, com voz infantil: "o que você quer, filhinho?" ele: "nada. só queria que você viesse até aqui pra me ver brincar". ok. ok. ok, respira, natalia. se fosse meu, não sobrava junta em pé.

nunca vi uma criança gritar tanto. e corre e pula e grita e grita e grita e grita na sua cara, malcriado do caralho. sentado na minha frente, mostrando a língua, não responde perguntas de ninguém. não responde nunca. as duas avós foram tentar travar uma amigável conversinha e o primo: "o que vocês estão me olhando? querem fazer o favor de sair daqui? vocês estão atrapalhando minha brincadeira". ok. ele ACABA de completar 6 anos. ok. ahan. é isso aí.

inventou de nadar. não tinha sunga. arrancou as calças e foi pulando na piscina. não é que o maldito sabe nadar perfeitamente? pediu bóia, pranchinha, gritou com o pai porque ele havia esquecido o "novo brinquedo aquático". palavras dele. irmão de onze pula na piscina com ele e ficam os dois brincando com o zoológico de borracha que ele tem. tio aparece com uma filmadora.

"filma eu, pai, filma eu!" salta fora da piscina, dá umas reboladas, faz uma dancinha e pula na água de novo. "filmou?" "filmei, filho." "então filma mais." salta fora, rebola, conta uma história, faz gracinha. joga água nos outros. todos riem. minha mãe, rindo entre os dentes, faz uma força danada para conter os bracinhos magros que insistem em voar no pescoço do molequinho. eu nem rio. não acho graça nenhuma. ok, criança é criança, mas ser criança tem limite. não suporto maleducação em criança. gentinha mimada. mamãe, quero isso, mamãe, quero aquilo, mamãe, não vou comer o tomate, mamãe, não quero por a roupa, mamãe, vem aqui agora... vem aqui agora? VEM AQUI AGORA? vou. ahan. vou sim. fica aí, sentado, esperando. quer falar comigo? tem pernas? então que venha até aqui. e AI! do meu futuro filho se inventar de ser assim. coitado. leva sova todo dia.

a derradeira: mamãe indo embora, se aproximando do carro. priminho atrás, sorrateiramente. mamãe não percebe a presença do filhinho e libera um flato, tranqüila na quietude e solidão do local em que estava. filhinho, mais que ouve: cheira. e sai correndo, gritando desesperado, numa espécie de musiquinha: "A MAMÃE PEIDO-OU! A MAMÃE PEIDO-OU! A MAMÃE PEIDO-OU!"

não teve escapatória.

no fundo, não sei se fico feliz ou triste com essas coisas todas. triste porque esse menino vai crescer fresco chato filhinho de mamãe. espero que apanhe bastante na escola. feliz porque foi engraçado, ré ré ré. não que eu goste exatamente dessa tia, se é que você me entende. enfim. mas muito triste por mil outras coisas.

hoje, pela primeira vez em 56 anos de casados, minha avó esqueceu do aniversário do meu avô. chorou. chorou muito. chora todos os dias agora, desde o começo do fim. alzheimer, meus queridos.

chama-se alzheimer.

20.3.05

woo hoo woo hoo hoo

fodidos. todos estamos. eis que caminho por entre mil outros rostos no centro de jundicity e todos me parecem iguais. fodidos, mal pagos e mal comidos. as vidas se arrastam em olhos cansados que nada espelham, pois os dias são sucessões de presente sem sentido. não há planos. não há futuro. não se sabe quem se é e o que se quer. eu não sei. você sabe? não me pergunte.

eu pensava ter uma leve idéia. não muito clara, mas leve, ao menos. sabia que queria viajar e ver tudo quanto é gente, tipo, etnia, personalidade, cor, cheiro. isso não morreu. não morreu também a curiosidade pelo que é humano. pelas diferenças. o caso é que os dias vão passando e logo passa ano e não saí do lugar. falta coragem? é, acho que é, no final das contas. coragem para viver sabendo que não haverá um futuro. porque, quando se sai do lugar, tudo em frente é incerto e se perde a noção do cronotopo. cada passo em seguida pode levar a uma infinidade de locações. e nisso a gente se joga quando é sozinho, quando não tem ninguém. eu nunca tinha tido ninguém. com qualquer que fosse, eu estava sempre disposta a largar tudo e me jogar. sozinha. sou uma grande loner, no final.

gosto de ser sozinha, mas tenho gostado de ter companhia. hoje tenho alguém e continuo querendo me jogar, mas gostaria de levá-lo comigo. o que tenho que entender é que as pessoas nunca são iguais. nunca esperam a mesma coisa. nunca querem coisas similares. se há envolvimento e reciprocidade, pode ter certeza que há algo que deve feder em breve. os planos futuros. os desejos para os anos juntos. para o resto da vida. meus desejos não são bem traçados. os dele, sim. não me importo em ser pobre, contanto que tenha um bocado de doces, uns livros, música, banho, cama e sol de vez em quando. ele sim. quero ir. ele não. mas quero ele e agora não sei o que fazer.

achava que a gente era muito diferente. que nunca daria certo. não abro mão das coisas que quero. ele também não. e então ia indo, living and letting live. é nessas que a gente se perde e se fode inteira. é como entrar num túnel estreito de arame farpado. qualquer espirro, qualquer movimento brusco ou em falso, qualquer hesitação pode cortar. fundo. e eis que estou com os pulsos em cortes fundos, perdendo sangue devagar para uma situação que deveria estar sob meu controle. não sei se está ou não, mas acho que não me importo mais. ele me ensinou a não me importar.

a gente vai crescendo e aprendendo uma porção de coisas. deixa de ser burro de vida. vai aprendendo a ceder aqui e ali, a puxar a corda do cabo-de-guerra quando preciso, essas coisas. tentando manter o equilíbrio. quando se descobre a fórmula, pfff, já era. você se vê ao lado da pessoa para sempre e acha que seria uma boa vida. porque sabe exatamente o que deve fazer, e em que hora, para manter a paz. porque sabe onde estimular para ganhar o que quer. e onde doar para ver o sorriso que te enche tanto, que te estufa o peito, que te remexe as borboletas do estômago e te faz querer dormir enrolada no corpo quente, esfregando teu nariz naquele peito que, afinal, pulsa.

querendo ou não, descobri que somos iguais. duas personalidades extremamente fragmentadas. dois eus múltiplos, que se manifestam conforme a vontade, o local e/ou a necessidade. a diferença é que ele tem amarras, eu nem tanto. ele tem medo, eu nem tanto. ele preza a sociedade e as regras morais e cívicas. eu nem tanto. eu, cada vez menos. já disse antes: as pessoas não se cansam nunca de me decepcionar. quanto mais conheço o homem, mais gostaria de não conhecê-lo. as pessoas são sujas e mesquinhas e egoístas demais para terem o direito de conviver umas com as outras. elas se destroem o tempo todo. estou para achar gente limpa. gente direita, gente sem um ps. a fazer no final da descrição. por isso gosto de ficar sozinha. é, deve ser por isso mesmo.

isso aqui não passa de um emaranhado de idéias que estou vomitando em forma de teclas apertadas, mas isso não importa. vi aqueles rostos sem feição diversa em jundicity, downtown, e pensei no propósito de tudo. e há? não sei. não consegui concluir nada. nunca consigo. o fato é que percebi que, a cada novo dia, quero ser alguém diferente. e sou. visto uma roupa diferente e ativo o modo de personalidade que me agrada naquele momento. talvez ninguém possa dizer que me conhece de verdade. ninguém, não. umas 3 pessoas. contadas. isso não é ruim, nem bom. não é nada. é um fato. oyamada me disse uma vez que tenho um estilo punkcyberfashionindiehardcoredoceamargoseiláoquê. não concordei no momento, mas assino embaixo agora. é isso mesmo. e que se foda. quer gostar, goste. caso contrário, vá embora, por favor. a porta, como se sabe, é serventia da casa e eu odeio falsidade. sou sincera e espero o mesmo. mesmo que machuque, mesmo que corte, mesmo que não sare nunca.

é caindo que aprendemos a levantar.

17.3.05

pílulas cotidianas 4

sonhei com um gato e um rato e uma briga. o rato irritava, o gato louco da vida. eu assistia. o sonho começou com um letreiro que dizia "damn, my blood runs pink!", em fuchsia brilhante, acima das cabeças do rato e do gato, os dois em modo pausado. alguém os despausou e a briga começou. era um tal de esconder e achar e arranhar e o rato mordeu meus dedos que sangraram e o gato, que era meu e muito fiel, se enfureceu duma tal maneira que pegou o rato de jeito. projetou para fora suas garrinhas de titânio e záz, bem na jugular do rato, que tossiu um pouco entre os dentinhos da frente, levando as patas de roedor à garganta. o sangue correu rosa fuchsia maravilha cintilante. respirando num chiado, agonizando, o rato só teve tempo de exclamar [exclamação essa que subiu fumacenta, se materializando em letras coloridas sangrentas de cor que só o sistema rgb pode proporcionar a você]: "damn, my blood runs pink!"

que merda de sonhos pop que eu ando tendo.

engoli umas 4 bolachas de leite e mel e uma xícara grande de leite desnatado com nescau. o motorista chega e logo ruma à expo center norte, gift fair. muito grande, muita gente, muitos estandes pra ver, muita informação pra guardar. dei tilt no tico. um cento de cartões de visita depois, hora do beirute com del valle. sem docinhos, pois não havia tempo. como assim, sem docinhos? as pessoas não vivem felizes sem docinhos. pois bem, eu não estou feliz porque não comi um docinho ainda. estou com o modo /velharabugenta ligado. grrrrrrr.

nada de novo no front, com excessão dumas velas gigantes esculpidas em forma de deuses indianos. eram bem perfeitas, as velas. fiquei ali, andando e vendo os estandes de decoração e tentando decidir com qual estilo decorarei minha casa quando tiver uma. não consegui concluir bulhufas. às vezes acho que quero tudo superpop. logo em seguida, me lembro de como toda a decoração baseada em coisinhas orientais é bonita: os deuses todos, os tatames, as luminárias, as estátuas, os cheiros e as cores. logo em seguida, penso num estilo meio provence e em estampas fofas de cerejas em poltronas à la Luiz XV, em penteadeiras de madeira gasta e em lustres enormes e fofos com frutinhas tropicais.

talvez eu pudesse ter um cômodo diferente do outro. a casa temática. um quarto pop, outro oriental, outro provençal, outro clássico, e assim vai. haja dinheiro.

nossa, que fútil estou hoje.