31.1.05

pílulas cotidianas 2

não comi nada pela manhã. meia caneca de água, porque os copos estavam todos sujos, e rua. dois reais em moeda no bolso. dez horas da manhã. dez e sete, no ponto, uma menininha deficiente mental me diz oi. digo de volta. adoro como os retardados se divertem com as mãos. gostaria de saber me divertir sozinha assim. ops. eu sei. é, tinha esquecido. e tome um pouco mais de admirável mundo novo sob o sol que dava as caras e me esquentava as costas, finalmente.

agora temos balas de goma coloridas num grande pote transparente, tampa azul. aquelas balas de goma que parecem gomos de mexerica. há uma certa movimentação em volta do pote de vidro de tampa azul. as pessoas fingem que vão refilar prints importantíssimos e caem de boca nas balinhas. eu gosto da verde, apesar de ser sabor pinho-sol, e da roxa. gosto de tudo que é verde e de tudo que é roxo, contanto que uma coisa nada tenha a ver com a outra.

hoje eu enxuguei a pia com toalhas de papel pela primeira vez. não enxugava porque achava que era só mais um aviso inútil do banheiro. mas hoje eu descobri que as pessoas, de vez em quando, realmente seguem o regulamento. então peguei muitas toalhas de papel super absorventes [2 são o suficiente para um par de mãos recém-lavadas] e enxuguei a pia inteira. foi ótimo. será minha nova terapia.

fomos eu, renata e david até o suposto "terraço" do prédio da abril para ver como era. que terraço, que nada. o "terraço" é um restaurante chique para os high nipes que trabalham no 24o. andar e acima, ou seja, diretores e executivos fodões em geral. o buxixo é que o restaurante nem é bom. mas tem, sim, um terraço. que está em reforma e, portanto, recebeu uma gentil camada de insulfilm 90%. poético. mais ainda seria três estagiários, calças jeans, all stars e cabelos desalinhados, adentrando o recinto onde comem os fodões e indo "ver o terraço".

meu nariz não pára de escorrer. vida rinítica.

28.1.05

pílulas cotidianas 1

meu nome é natalia e eu tenho 21 anos. sou alta, branca, tenho cabelos curtos e pretos-tingidos. uso muito protetor labial [vulgo batom] porque meus lábios são grandes e ressecam imensamente nesse frio-calor do verão 2005. não suporto saltos altos em mim, mas acho lindo nos outros. tênis são minha vida. fiquei muito feliz quando soube que poderia me vestir como quisesse no meu novo trabalho, no meu trabalho empresarial.

hoje estou de calça jeans, cinto de ilhós, camiseta do processo seletivo da eca jr. [empresa júnior para a qual fui diretora de criação por um ano], casaquinho das lojas pernambucanas e terninho com stretch de origem duvidosa, tudo em tons de azul. meus tênis puma foram presente de natal do meu namorado. ele pensa que eu não gostei, porque fiz uma cara estranha como reação imediata à abertura do pacote, mas na verdade eu gostei muito. queria um par de puma já fazia tempo.

recentemente, troquei meu tijolo nokia por um nokia novinho, pequenino, tela colorida, toques polifônicos. dois dias e me aparece um problema na tela do celular. uma linha de luz da tela misteriosamente demonstrou uma queda para o vermelho e, agora, só quer ficar rubra. uma linha rubra em meio a brancos, azuis e esverdeados. no final de semana, passo no shopping e troco o celular defeituoso. talvez aproveite também para buscar meus óculos novos, após seis anos usando uma armação vogue esverdeada e sem graça, dessas que não acrescentam nada na vida de ninguém. na aparência de ninguém. dessas neutras que a gente usa só porque a gente tem que usar, mas usa para que ninguém perceba. porque você morre de vergonha de usar óculos. bom, finalmente não tenho mais 15 anos e a vergonha eu mandei passear, então me comprei um par de acrílico meio roxo. lindo.

aqui na redação todo mundo é bem calmo. meu computador é o pior de todos. só falta ter tela verde-preta. mas a internet funciona bem, e podemos usar msn e ver e-mails pessoais. podemos até escrever nos nossos blogs! e todos têm orkut, e é permitido utilizá-lo em horário de trabalho. não que isso e o fato de usar a roupa que se quer torne o trabalho mais feliz, ou mais interessante, mas já é alguma coisa. pelo menos preencho meu ócio laboral com produção literária. rá rá, desculpem, não consegui evitar. enfim. as pessoas são calmas e ouve-se tudo o que elas falam pelo telefone. então, pombinhos, cuidado ao arrulhar. vocês podem ser alvos da próxima chacota.

o banheiro feminino é espaçoso e cheio de avisos. "jogue o papel no cesto". "puxe a descarga após o uso". "seque a pia após o uso". "apague a luz ao sair". "coloque papel usado e absorventes no saco plástico azul antes de jogar no lixo". "se o papel cair no chão, pegue-o e jogue-o corretamente no cesto". se peidar, abane. enfim. são cinco cabines. a última é a mais legal, porque tem um chuverinho para o cocô. apesar da porcelana estar sempre pintada - algo que não se pode evitar, afinal -, ele é o melhor para uso geral, pois é garantido que não haverá respingos de xixi da última mulher que urinou em pé por nojo de sentar na tampa da privada onde todas enconstam a bunda. ossos do orifício.

acabou a água. tiraram o galão de 20l, e alguém afixou a seguinte nota na reentrância na parede, escrita em winword, corpo 12, times new roman:

Cantinho do Amor.
Entre e beije móito.
Falar com Fulana de Tal, Redação Tal, Ramal Tal.

interditaram o local com caixas de mudança. talvez estivesse se tornando obsceno demais para um ambiente de trabalho.

o recado? continua na parede.